Para começar

Publicado em dhd2013.filos.unam.mx em 10/06/2013

Parte da equipe do Grupo, em 2010: Bruna, Mariana, Telma e Márcia, com Vitor Hitoshi

Pequena equipe do Grupo, em 2010: Bruna, Mariana, Telma e Márcia, com Vitor Hitoshi

Um dia, nos idos de 2009, quando começamos a trabalhar com os textos da Biblioteca Brasiliana (e nossa principal lida diária era fazer com que os programas de reconhecimento automático conseguissem “ler” os textos impressos dos séculos XVI e XVII) o Prof. István Jancsó – fundador e idealizador da Brasiliana Digital – parou para olhar o que estávamos fazendo no computador e disse:

Entendi. Vocês colocam o texto em um liquidificador, batem bem, e depois dele ficar líquido vocês esculpem, novamente, a forma que ele tinha no começo.

Essa foi a melhor definição da edição filológica eletrônica que eu já ouvi.

Por isso, começo com ela este primeiro post para o Dia das Humanidades Digitais, durante o qual esperamos conhecer outros liquidificadores e esculpidores de textos.

Queria contar, para começar, a história da minha trajetória de pesquisas nessa seara. Para isso volto atrás mais alguns anos, para a década de 1990, quando fui aluna de iniciação científica na equipe do Corpus Tycho Brahe, na Unicamp – numa época em que, pelo menos aqui no Brasil, ninguém nunca tinha ouvido falar em “Humanidades Digitais”, e as pessoas achavam muito esquisito aquele pequeno grupo de alunos de letras enfiado o dia todo numa sala cheia de computadores. Estávamos construindo um corpus sintaticamente anotado, coisa da qual também nunca ninguém tinha ouvido falar – tudo por conta da iniciativa visionária da Profa. Charlotte Galves, fundadora do projeto e coordenadora do Corpus até hoje.

Pois bem, a minha iniciação científica era dedicada ao estudo do uso dos pronomes em textos notariais portugueses medievais, e só foi possível graças à ajuda da Profa. Ana Maria Martins, da Universidade de Lisboa, que generosamente nos enviou os documentos que ela havia editado para a sua tese de doutorado, que acabara de ser defendida.

Digo “enviou”, e algum incauto pode imaginar que isso me chegou por email, e que eu abri os arquivos com um simples clique do mouse, e comecei a trabalhar toda contente. Longe disso – estávamos em 1996, e não havia essas facilidades. Não – o que nos chegou de Lisboa (por correio!) foi um grande pacote com disquetes – floppys, daqueles grandes. E dentro, estavam encerrados os textos, em formato WordStar. “Encerrados”, sim, porque eu não conseguia acessá-los de maneira nenhuma nos computadores que tínhamos. Então, fomos buscar ajuda dos colegas no prédio ao lado, no Instituto de Matemática e Computação.

Lembro bem da fisionomia satisfeita do estagiário do IMEC (mas não lembro seu nome), quando, depois de alguns dias de tentativas, ele me chamou para contar que tinha conseguido abrir os arquivos, e que eles estavam em perfeito estado. Mas quando eu vi os textos, fiquei tristíssima – pois toda a formatação tinha sido perdida. O rapaz ficou decepcionado com a minha tristeza – deve ter me achado uma tremenda ingrata – e disse, “Mas a formatação não é nada! Pelo menos eu recuperei o texto!”

Claro que ele não sabia que, numa edição filológica, a formatação indica(va) as intervenções do editor no texto original – por exemplo, o itálico para expansões de palavras abreviadas, sublinhado para conjecturas, etc. Bem – ao final, procurei agradecer como pude, fui embora e comecei a minha tão sonhada pesquisa sobre os pronomes.

Mas aquele episódio das formatações perdidas ficou martelando na minha cabeça. E foi talvez por conta da memória traumática daquele dia que, nos próximos anos, comecei lentamente a pesquisar sobre formas diferentes de tratar a intervenção editorial em textos eletrônicos. Continuei a trabalhar com a equipe do Tycho Brahe, fiz meu doutorado, e em 2004, propus uma pesquisa de pós-doutorado dedicada à investigação de novas formas de edição filológica em meio eletrônico (o projeto “Memórias do Texto“). Dali saiu a reestruturação do Corpus Tycho Brahe em XML, e mais tarde, o eDictor, uma ferramenta de apoio para edições em XML, desenvolvida inicialmente por Fabio Kepler.

Screen Shot 2013-06-10 at 1.52.09 AMOs anos se passaram, e hoje temos uma pequena equipe trabalhando com edições filológicas eletrônicas na Biblioteca Brasiliana da USP seguindo uma versão atual dessa mesma metodologia. Esses anos na Brasiliana, com o contato com colegas de outras áreas das humanidades – em especial, a história – fizeram com que o nosso trabalho de anotação dos textos passasse a incluir informações de natureza mais variada – estamos, agora, tentando começar uma indexação dos personagens e lugares históricos mencionados nos textos, por exemplo. Nosso trabalho é ainda muito experimental, mas temos muito ânimo para aprender novas formas de trabalhar o texto – de liquidificá-lo e depois criar a ilusão da volta à forma original.

(Escrito por: Maria Clara)

(Editado às 12:15 – fotos e links)

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